Ação humanitária

Saara Ocidental: as mulheres que governam no deserto

 
FONTE: EL PAÍS - Por: Marta Trejo Luzón   
 
Em 1975, a Espanha abandonou a sua colônia do Saara Ocidental, o que deu início a uma guerra pelo controle do território entre a Frente Polisario (Movimento de Libertação Nacional Saariana), Marrocos e Mauritânia. As mulheres, os idosos e as crianças que viviam no Saara Ocidental fugiram para Tinduf, região cedida pela Argélia para que se assentassem temporariamente até o final do conflito. Lá foi criada a República Árabe Saariana Democrática (RASD), articulada por comitês revolucionários compostos quase exclusivamente por mulheres. Existem cinco campos, onde vivem atualmente 185.000 pessoas. Na foto, Fatimehtu Mahmud, que 42 anos atrás teve que fugir para o deserto de Tinduf com sua família, deixando tudo atrás. Vive na wilaya (província) de Auserd com uma filha e suas netas. Tem hoje 67 anos, e suas duas outras filhas vivem nas ilhas Canárias e em Jerez (Espanha), de onde lhe mandam ajuda para subsistir. Dentro do campo há um pequeno mercado onde os refugiados adquirem produtos de primeira necessidade, higiene e roupas. Os alimentos chegam aos campos graças à ajuda humanitária.  



 As mulheres são encarregadas de praticamente toda a vida social e econômica nos campos de refugiados. Transformaram os assentamentos em grandes núcleos urbanos organizados, limpos e solidários, que acolhem os milhares de cooperantes que anualmente visitam a região para oferecer ajuda e entender melhor a situação do conflito. As crianças e os idosos respeitam profundamente as decisões das mulheres, e são elas que mantêm o discurso de uma solução pacífica para o conflito, com muita esperança nas Nações Unidas e no Governo espanhol, a antiga potência colonial.




 
Biya, Jadiyetu e sua amiga (de 9 e 10 anos) frequentam a escola Tichla, dentro do campo de Auserd. Participam uniformizadas de um desfile em homenagem a Brahim Gali, o novo secretário-geral da Frente Polisario, em substituição a Mohammed Abdelaziz, que morreu no ano passado. A vestimenta militar representa o desejo de muitos saarianos de retomarem a luta armada. No colégio, os meninos e meninas cantam o hino do Saara Ocidental todos os dias antes do início das aulas, enquanto hasteiam a bandeira. A letra fala dos mártires e do sofrimento do povo saariano. A imagem dessas crianças em fila recitando as palavras remete a uma rigorosa hierarquia própria de um Estado militar. “Marrocos terá que resolver este conflito antes que os jovens cheguem à direção política da RASD, porque então não conseguirá mais pará-los”, diz Mansur Mohammed Fedel, representante da União de Jovens Saarianos (UJSario).




 As mulheres saarianas, além de organizarem a direção dos acampamentos através de comitês e subcomitês, são as ativistas mais envolvidas. Muitas delas saem para o deserto com as fotos de seus amigos e parentes desaparecidos durante os confrontos com as forças marroquinas. A Associação de Familiares de Presos e Desaparecidos Saarianos (AFAPREDESA) denuncia, através de imagens gravadas, a brutal repressão sofrida pelas mulheres ativistas que vivem no território administrado por Marrocos. Nem todos os espectadores conseguem sustentar o olhar diante das cenas de agressões e invasões de moradias por parte das forças de segurança marroquinas. Na foto, a mulher à esquerda carrega o retrato de seu irmão mais velho, e a mulher à direita, o do seu pai, ambos desaparecidos durante a guerra contra Marrocos.




 As meninas dos acampamentos vão à escola desde pequenas e, quando acabam a educação obrigatória (ensino médio) partem para estudar no exterior. Muitas emigram de vez, mas outras voltam para aplicar seus conhecimentos dentro dos campos. A RASD se considera um dos Estados árabes mais igualitários. Gaba-se de “não ter nem uma só mulher nas prisões, nem existirem casos de violência de gênero”. Mas esses dados não podem ser confirmados devido à falta de estatísticas e de um sistema judicial que o administre.




As moças que não podem sair dos campos de refugiados para estudar no exterior se formam nos poucos centros de ensino superior existentes no deserto. Na Escola 27 de Fevereiro, no campo de Bohador, elas recebem educação especializada em produção, agricultura e gestão. Além disso, a RASD iniciou um projeto de universidade em Tifariti, com vários campi espalhados pelo deserto. Entretanto, a educação que recebem é incompleta, e as alunas reivindicam o apoio de professores estrangeiros que as assessorem para aprender mais.



Esta mulher policial vigia a marcha comemorativa do cuadragésimo primeiro aniversário da criação da RASD no campo de refugiados de Auserd. A segurança nos campos está muito reforçada devido aos perigos que existem no deserto do Sahel. O contrabando de armas e drogas e o avanço do extremismo islamista põem em perigo a segurança dos refugiados de Tinduf. A partir de 1:00 está proibido circular em carro pelo campo de Auserd, onde se reforça a vigilância pelas noites.

 

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