Terceiro setor

ONG resgata autoestima de mulheres em situação de vulnerabilidade

FONTE: CB

Mais de 150 mulheres são atendidas pela instituição no Recanto das Emas. Ali, elas aprendem o ofício do bordado e da costura enquanto seus filhos e netos têm aulas diversas

“Minha infância não foi boa. Meu pai nunca gostou de mim. Tentou me abusar quando eu era criança”. Esse é o triste relato de Jocineide Ribeiro, 48 anos. Ela conta que, aos 11 anos de idade, foi expulsa pelo pai. Trabalhou em uma casa de família, mas sob regime de escravidão. O sentimento de infelicidade alastrou-se. “Eu fui muito sofrida. As pessoas me perguntavam: ‘Jô, por que você não ri?’ Respondia que era porque eu não me amava, não gostava de mim”, confessa.Continua depois da publicidade

Jocineide relata diversas situações de violência doméstica vividas por ela e a mãe. Essas histórias ficaram para trás. Hoje, ela é uma das mais de 150 mulheres atendidas pelo Instituto Proeza, organização não governamental (ONG) que atua no Recanto das Emas e na Cidade Estrutural. “Depois daqui, minha vida mudou completamente. Comecei a rir e fazer amizades. Antes, não conversava com ninguém”, recorda.

“Depois de 48 anos, estou me descobrindo como mulher. Eu não gostava de me olhar no espelho, me achava feia. Hoje eu não penso mais assim.” Jocineide diz que o grupo resgatou a autoestima, permitiu o convívio com outras mulheres com histórias difíceis e a ajudou a amar a si mesma. “Eles me deram um amor que eu nunca tive. Hoje eu me reconheço, sou capaz de tudo, enfrento qualquer coisa, não tenho medo de nada”, afirma.

A participante aprendeu a bordar e fez o próprio autorretrato, mas não só ela se beneficiou com o projeto. A filha, Natália Ribeiro, 9, aprende balé, filosofia e inglês enquanto a mãe tem aulas de bordado, costura e dança.

Uma sequência de acontecimentos dramáticos também marcou a vida de Neila Nascimento da Costa, 48 anos. “Eu enterrei minha sogra em uma semana, na outra, meu pai, pouco tempo depois, meu marido. Entrei em depressão profunda, depois, em coma. E precisei passar por três cirurgias.” Após sugestão de uma colega, há oito meses, Neila entrou no Instituto Proeza e não pretende sair tão cedo. No início, ela recebeu em casa a visita da fundadora do projeto, Kátia Ferreira. “Ela deixou minha autoestima lá em cima, me falou que tinha muitas coisas para fazer, bordado, crochê, então fui conhecer. Foi onde eu me encontrei, comecei a sorrir. Mudou tudo”, lembra.

Hoje Neila dorme bem, tem boa alimentação e convive com amigas novas. O relacionamento com a família também melhorou. A moradora do Recanto das Emas afirma que chegou ao instituto sem saber colocar a linha na agulha. “Minhas filhas ficaram surpresas porque, em um mês, eu fiz dois autorretratos e saíram perfeitos. Eu ainda coloquei a palavra ‘fé’ porque, pra mim, eu renasci. Os médicos me desenganaram, chamaram minha família e falaram que eu não voltaria das cirurgias, que eu morreria. Eu achava que ia morrer”, conta. Recentemente, ela fez o retrato de Nossa Senhora e está bordando o de Santo Antônio.

A neta de 8 anos de Neila tem aulas de balé, matemática e inglês na instituição. “O sonho dela era fazer balé”, diz, empolgada. “Hoje estou leve, meus netos vêm, me abraçam e dizem: ‘vovó, te amo’. Eu choro me lembrando do passado, porque eu os escutava falando isso e não tinha forças para dizer ‘eu também te amo’. Eu ficava ali jogada, não tinha vontade pra nada. Hoje meus netos são tudo na minha vida.”

Pré-vestibular

O Proeza foi criado em 2003, com o objetivo de proporcionar a equidade de gênero e possibilitar melhorias na esfera escolar de meninas e de mulheres e seus filhos. Para os jovens, o projeto oferece aulas de pré-vestibular com foco no Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB) e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Para as mulheres em situação de vulnerabilidade, há turmas de dança, bordado, costura e panificação.

A fundadora do projeto, a estilista Kátia Ferreira, avalia que as mulheres são as primeiras a sentirem os aspectos intensos da pobreza, porque são sobrecarregadas com os trabalhos não remunerados, geralmente ligados às tarefas domésticas e aos cuidados com os filhos. E, quando surge uma oportunidade para elas fazerem algum curso de capacitação que lhes dê a possibilidade de ingressar no mercado de trabalho, um fator as impede: não ter com quem deixar as crianças. “Quantas vezes uma mãe se viu nesta situação de não poder ir ao trabalho porque suas responsabilidades com a casa e com a família não permitiram?”, questiona.

Origem

O Proeza se originou do projeto Mulheres de Niemeyer, que reunia bordados de desenhos do arquiteto responsável pelas formas de Brasília. “Em 2002, éramos cinco mulheres embaixo de uma árvore. Eu trazia linhas, agulhas e fazíamos os primeiros bordados”, conta Kátia.

Em 2009, o Instituto Proeza, com o apoio do programa Criança Esperança, da Rede Globo, promoveu capacitações de mulheres em conjunto com o atendimento aos filhos. Dessa forma, enquanto as crianças estavam acolhidas e seguras, as mães desenvolviam suas atividades. Depois, segundo Kátia, a instituição ampliou o leque de atendimentos para a faixa etária de 16 a 20 anos. “Vimos outra necessidade: estudantes do ensino médio que não conseguiam acessar a universidade pública. Criamos o pré-vestibular social, com uma taxa de aprovação de 46%”, afirma, orgulhosa.

Em junho deste ano, o Instituto Proeza sofreu um assalto na madrugada. “Levaram tudo, a recepção, comida e até os sucos”, lamenta. Mas o ocorrido não desestabilizou a equipe, que continuou o trabalho em prol das mulheres e das crianças.

No ano passado, a Fundação Banco do Brasil apoiou um dos trabalhos desenvolvidos pelo Proeza, o projeto Reúso de Resíduo Têxtil e Produção Comunitária de Pães e Alimentos. Por meio dele, as mulheres têm acesso a capacitações gratuitas de bordado manual, crochê, costura em máquina industrial, tecelagem, tingimento orgânico, panificação, educação financeira e plano de negócios.

Parceria nas aulas de dança

As participantes do Instituto Proeza têm aulas de dança por meio do projeto Divas Dance. A idealizadora da iniciativa, Roberta Marques, é professora há 25 anos e conta que tudo começou com um pedido da avó. “Com a morte do meu avô, ela passou por um profundo período de luto. Depois, percebeu que precisava voltar à ativa, ir a uma academia, mas não uma tradicional, que não teria estrutura para uma senhora de 83 anos. Criei o projeto, entendendo as necessidades que ela tinha: físicas, emocionais, sociais”, explica.

O Divas Dance existe há 9 anos em 39 locais diferentes do DF, entre eles, o instituto no Recanto das Emas. “Apesar de elas não estarem na terceira idade, e o projeto ter sido criado para esse público, ele, na sua essência, consegue provocar nas mulheres tudo de positivo que a gente tem, independentemente das fases que elas estejam vivendo. Elas têm a oportunidade de dar gargalhadas, deixar que a emoção extravase, cantar alto, brincar”, complementa Roberta.

Como participar
É necessário inscrever-se pelo telefone (61) 3222-2287 ou pessoalmente (Quadra 200, Conjunto 3, Lote 5, Recanto das Emas)
Horário de atendimento: das 8h às 18h, de segunda a sexta