Preconceito

Mulheres lutam por espaço em esporte onde o preconceito e a indiferença prevalecem

FONTE: DIARIO CORUMBAENSE

Imagine um ginásio, uma bola, árbitro, traves, duas equipes e torcedores. Descrevendo esses elementos, provavelmente o esporte que vem à cabeça é o futsal, e possivelmente, equipes masculinas é que estariam prontas para este jogo imaginário. Embora muitos não admitam, esse conceito de que o futebol ou futsal é um “esporte para homens”, é presente na sociedade.
Pensar dessa forma não é errado, apenas reflete a realidade do esporte. A falta de espaço em todos os sentidos, é apontada por muitas que vivenciam a atividade como um dos adversários mais difíceis de serem derrotados.

Desafios desde o início

O futebol, assim como o esporte adaptado para prática em quadras, hoje denominado futsal, é indiscutivelmente o esporte preferido da maioria dos brasileiros. A bola, o jogo entre amigos na rua, faz, ou já fez parte da infância de muitos garotos, e diferentemente das meninas, não existem impedimentos para que se desfrute da atividade. O direito ao lazer, assegurado pela Constituição, “não serve” para todos já que segundo as adeptas, o preconceito velado contra as “meninas que jogam bola” vem cedo, e não cessa.

A certeza das garotas que se apaixonam pelo esporte é apenas de que por mais vitórias que elas consigam dentro das quadras, adversários como o preconceito e indiferença fora delas, dificilmente serão derrotados. Ao contrário dos homens que em muitos casos são apresentados ao esporte pela própria família, muitas, por vários motivos, são desencorajadas a praticá-lo. Sem apoio em casa, elas ainda precisam aprender, na maioria das vezes sozinhas, a conviver com o que vem das arquibancadas, que nem sempre são gritos de apoio.

O relato sobre a realidade é da técnica e fundadora de um time de futsal feminino, Mariana Rodrigues de Carvalho. A professora de educação física falou ao Diário Corumbaense sobre as dificuldades enfrentadas desde quando iniciou na modalidade ainda com 11 anos. Hoje, uma das poucas técnicas de futsal do Estado, ela afirma que o gênero sobrevive na modalidade graças ao esforço de integrantes de grupos que mesmo diante dos obstáculos, persistem.

“Na verdade eu era atleta e já enfrentava algumas situações ruins. Muita coisa ruim que vinha da arquibancada, muita coisa ruim de algumas pessoas envolvidas no esporte. Você já sofre preconceito na sua casa, vê as pessoas falando que se praticar futebol vai virar homossexual, ou quem pratica já é homossexual. Hoje como técnica sou mais forte do que quando era atleta, mas as dificuldades ainda são muito grandes, tudo muda a partir do momento que a gente fala de futebol de mulheres. Talvez se eu fosse técnica de um time masculino fosse melhor, ou se fosse um homem treinando uma equipe de mulheres. Eu consigo pouca coisa falando que é um time de mulheres, hoje, por eu estar na Prefeitura – agente institucional – talvez eu tenha um acesso melhor, eu consigo usar o espaço público com mais facilidade, o que ajuda um pouco, mas é tudo muito difícil”, explicou Mariana.

Falar sobre futebol feminino
Para ela, somente a informação pode desmistificar o futebol feminino. Há muito caminho a ser percorrido, entretanto, ela aposta que a mudança de pensamento das pessoas seria o primeiro passo para melhorar esse panorama.

“A dificuldade maior no momento é ter esse espaço para que a gente mostre que realmente acontece, mostrar o que a gente passa, aí entra essa falta de apoio, tanto financeiro, quanto social. Essa abertura ajudaria muito porque a partir do momento que as pessoas entenderem que é uma modalidade que sofre preconceito, talvez a situação melhorasse um pouco”, destacou.

Exceções

Mas existem as exceções, aquelas que pelo menos dentro de casa encontram suporte. Ariany Moreira Medeiros (35) recebeu apoio da família para praticar o esporte desde cedo. Com o encorajamento do pai, ela já participou inclusive de seleções regionais da modalidade.

Hoje, ela integra a equipe GAC (Garra Amor e Coragem) da técnica Mariana Rodrigues de Carvalho. Com apoios pontuais, o time independente conquistou o 4º lugar no último mês em uma competição de nível estadual, em Sidrolândia. Foi a primeira disputa das garotas fora de Corumbá em 14 anos de existência do time.

A atleta afirma que embora receba o apoio familiar, devido às dificuldades, é o amor ao esporte que as mantêm atuando. Ela destaca que uma maior sensibilidade poderia facilitar a prática da modalidade. “As dificuldades são muitas. Nós jogamos por amor, se fosse depender de incentivo, de patrocínio, nem teríamos continuado, já teríamos parado lá atrás. Nunca tivemos incentivo, nunca tivemos patrocínio, sempre fizemos promoções, sempre fizemos as coisas com nossos próprios meios. Assim vamos seguindo, mas lógico que gostaríamos de reconhecimento, de ter parceiros, para pelo menos conseguir o básico de material esportivo, sem que a Mariana precisasse fazer tanto esforço para que tenhamos condições mínimas”, afirmou.

Mudanças

O quadro pode mudar e essa esperança passa pela projeção que o esporte teve nos últimos anos devido às olimpíadas no Brasil e os feitos de Marta, maior nome do futebol feminino, eleita seis vezes melhor jogadora do planeta. Mas esse processo é lento e até lá, as meninas devem continuar enfrentando a realidade: treinando em locais e horários que não atrapalhem os times masculinos, utilizando materiais e equipamentos adquiridos com extremo esforço e vencendo diariamente todos os adversários, dentro e fora das quadras.

Para conhecer o time feminino de futsal e saber mais sobre as dificuldades que as mulheres enfrentam para praticar a modalidade, os interessados podem entrar em contato com a técnica da equipe, Mariana Rodrigues Carvalho, pelo telefone: (67) 9 9940-4955.

 

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