Terceira Idade

Quem precisa de cuidado se vê obrigado a cuidar

FONTE:  GAZETA DO POVO - Por: Vanessa Prateano        

Há oito anos, o vigilante aposentado Sebastião Soares de Castro, 73 anos, vive um dilema diário. Toda vez que o relógio desperta, às 7 horas em ponto, ele precisa decidir o que fazer primeiro: cuidar de si mesmo ou da esposa, dona Conceição, de 67 anos, que dorme no quarto ao lado. A decisão não é fácil: seu Sebastião, que sofre com a chegada da idade, com a hipertensão e os problemas do coração e precisa de atenção médica constante, é o único amparo da companheira, imóvel em uma cama por conta de três AVC (acidente vascular cerebral), cujas sequelas a impedem até mesmo de comer.Casos como o de seu Sebastião e dona Conceição ilustram um fenômeno que pouco ou nunca aparece nas estatísticas oficiais, quando os números sobre o envelhecimento da população (que aumentam) e o número de filhos por mulher (que diminuem) são divulgados: o de idosos que cuidam de idosos, sem amparo dos filhos ou do Estado. Essa parcela da população, que precisa cuidar quando deveria ser cuidada, ainda não foi contabilizada pelo governo – o que se sabe é que 23,8% dos idosos vivem apenas com o cônjuge, mas não se sabe sua condição de saúde. A literatura médica, no entanto, já começa a se preocupar com o problema.

Raciocínio

As implicações sociais e médicas são preocupantes, de acordo com o médico geriatra do Laboratório Frischmann Aisen­gart Clóvis Cechinel, que estuda o tema. O raciocínio é simples: um cuidador familiar (pessoa responsável por cuidar do membro da família que perdeu sua independência funcional, em geral o pai ou avô idoso) tem até duas vezes mais chances de desenvolver doenças. O risco aumenta para quatro vezes o normal quando o cuidador é cônjuge, e a mortalidade é 63% maior nesse grupo, de acordo com estudo da Organização Mundial da Saúde.

Nesse caso, é possível prever os males causados a quem já tem mais dificuldades de assistir e acompanhar em decorrência da idade. “O cuidado já é algo estressante e difícil. Para o idoso, pelo próprio processo de envelhecimento, é mais difícil ainda. A audição já está debilitada, o que dificulta a comunicação. Também possuem distúrbios visuais que dificultam na administração de medicamento. Eles têm menos força de tração, dar banho fica mais complicado. Há uma série de complicações”, diz o médico, que assiste vários idosos nessa situação, grande parte mulheres, que cuidam dos maridos.

Descuido

Além de enfrentarem mais dificuldades para cuidar, idosos que cuidam também tendem a descuidar da saúde, o que preocupa os médicos. Embora tenham mais contato com profissionais de saúde por acompanharem o cônjuge nas consultas médicas, em casa tendem a descuidar de horários da própria medicação e de hábitos que promovem o bem-estar. Nes­se caso, o geriatra e coordenador dos Programas de Saúde do Ho­­mem e do Idoso da Secretária de Es­­tado da Saúde (Sesa), Rubens Bendlin, alerta para a importância de o idoso ter um tempo para si.

“Muitas vezes, pelo estresse, o cuidador pode vir a óbito até mesmo antes daquele que é cuidado. Não pode haver sobrecarga de trabalho, e a pessoa precisa de um tempo para ir ao médico e fazer as suas tarefas”, diz Bendlin, que insiste na importância de os filhos auxiliarem os pais nessas tarefas e não deixá-los sozinhos em casa durante muito tempo. “A família é a principal responsável pelo idoso, antes mesmo do Estado. Isso está no Estatuto do Idoso, e é preciso haver essa conscientização”.

Nesse caso, o conselho é para que, em casos de famílias com dois ou mais filhos, esses se dividam para que ninguém se sobrecarregue – tanto emocional quanto financeiramente. Nas situações em que há apenas um filho, ou o casal não teve filhos, o Estado tem a obrigação de ser mais atuante. Caso o filho não tenha condições de cuidar sozinho dos pais, deve procurar a ajuda do sistema público de saúde e até de voluntários, que são recrutados por igrejas. Se o casal não tem filhos ou parentes, pode igualmente solicitar essa ajuda e, em casos de omissão do poder público, pode interceder junto ao Ministério Público Estadual ou ao Conselho Estadual do Idoso (Cedi).

Em 2003, a vida do casal Sebastião e Conceição Soares de Castro sofreu uma reviravolta. Naquele ano, os dois se mudaram para o Rio de Janeiro para ficar perto da única filha e “aproveitar o clima da praia”. Em março, porém, ela sofreu um derrame e demorou para ser atendida, o que provocou sequelas.

Debilitada, a aposentada voltou para Curitiba e foi morar com parentes. Três meses depois, o casal passou a viver sozinho, e então começaram as dificuldades. Pouco depois, veio o segundo AVC, e em outubro passado, o terceiro, que lhe tirou os movimentos do braço esquerdo e da perna direita, a fala e a capacidade de se alimentar.

O marido assumiu os cuidados e não se abalou. “Faço por amor, e sei que o que faço a ela empresto a Deus”, diz. Mas a rotina é pesada. Ao mesmo tempo em que cuida da própria saúde, não pode descuidar da troca de fraldas, dos remédios e da alimentação (via sonda) da mulher, preparada sempre um dia antes. “Passei a cozinhar os legumes e frutinhas dela na noite anterior. No dia seguinte, só bato no liquidificador. Ganhei uma hora de sono”.

Como não pode observá-la todo o tempo, é comum que ela retire a sonda e ele tenha de chamar o Samu para socorrê-la. Quando sai para pagar as contas, conta com a ajuda do cachorro da família para vigiar a casa. Em 2007, quando quebrou o fêmur e ficou um mês sem andar, precisou recorrer a parentes. Neste ano, a notícia de que teria de fazer cateterismo o alarmou. “Se fizessem na perna, eu não poderia andar e cuidar dela. Graças a Deus, fizeram no braço e deu tudo certo”.

Após esse tempo, o aposentado já cogita dedicar um dia da semana a si mesmo. Atleticano fanático, anseia ver um jogo na tevê e passear na casa dos irmãos mas, antes, ainda tem uma “missão”: conseguir um fisioterapeuta voluntário que ajude a esposa a recuperar parte do movimento. Hoje, ela até consegue mexer a perna esquerda, mas com muita dor, o que o deixa angustiado. Anda “sondando” com conhecidos para ver se alguém pode ajudá-lo. Crê que vai conseguir.

 

 

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