Pessoas em situação de rua

Projeto transforma igrejas abandonadas em abrigo e apoio para moradores de rua

FONTE: ALBERGUE NOTURNO DE ITU ()

Na doutrina cristã da Trindade, Deus desdobra-se em três. O pai, o filho e o Espírito Santo. Em Salvador, foi também em três partes que se desdobrou uma missão feita para amparar invisíveis, aqueles que para tantos só se mostram pelo incômodo. A história começa com um homem que nasceu na França, onde tinha uma vida confortável, e que se inquietou para conhecer o mundo e partilhar a vida com outras pessoas, como costuma dizer.

Depois de passar pela África, veio para a América Latina. Primeiro a Bolívia, depois o Brasil. Há 30 anos, desembarcou em São Paulo, depois quis conhecer o Nordeste. Quando chegou a Salvador, em 1990, foi por vontade própria dormir na rua, onde passou 10 anos. E 10 anos, sabemos, podem ser longos.

Pergunte o que Henrique Peregrino da Trindade, como se batizou aqui, aprendeu ao relento, e daí não sairão histórias tristes ou duras. Contará, depois de suspirar fundo, lições de solidariedade e amor: “A beleza do ser humano”.

As palavras lhe saem assim, poderosas, mas resumidas, porque Henrique não gosta de falar de si. Prefere discorrer sobre a comunidade abrigada na Igreja da Ordem Terceira Santíssima Trindade, em Água de Meninos, onde passou a morar com outros ex-moradores de rua em 2000, naquele ano em que se dizia que o mundo ia acabar.

Criada em 1733, a igreja estava fechada há dez anos quando Henrique a encontrou. O peregrino procurou o responsável pelo local para saber se poderia reabri-la para orações e para servir de morada a quem, como ele, tinha como cama a calçada.

Igreja, de um lado, pessoas, de outro, foram ganhando nova vida. Nos lugares dos bancos e das imagens de santos de antes vieram estantes para livros, cabides para as roupas, bichos de pelúcia para aconchegos, enfeites e quadros para as paredes. Era o início da Comunidade da Trindade, a primeira das três pontas da missão.

Do lado de fora montaram uma cozinha, ao redor criaram um jardim, e com o tempo foram reformando as casas do entorno, formando uma pequena vila escondida nas proximidades da avenida Jequitaia. A condição para permanecer ali era e continua sendo o compromisso com a sobriedade, por parte de cada um, e com a comunidade, por parte de todos.

Tudo ia num “bom caminho”, lembra Henrique, com os moradores “estabilizados”, mas faltavam os meios de se ganhar dinheiro. “O que os impedia de voar com as próprias asas era a geração de renda. É sempre muito difícil para alguém que passou pelas ruas encontrar trabalho”.

Jornal de rua

A preocupação lhe tirava o sono, até que numa madrugada lembrou dos jornais de rua que via na França e em outros países da Europa. Foi a São Paulo conhecer a experiência da revista Ocas e até pensou em trazê-la para vender aqui, mas a publicação era muito cultural e muito paulistana, não tinha como vingar.

Tiveram então a ideia de criar uma publicação baiana, inovadora, que não apenas fosse vendida por moradores de rua, mas que também trouxesse sua visão de mundo, algo raro mesmo neste nicho editorial. “A visão clássica é a da vitimização, de achar que eles são coitadinhos, ou da criminalização, de achar que são bandidos. A comunidade sabia que a realidade não era nem uma, nem outra. Sabia de toda beleza que existe mesmo nas trevas das ruas. Então pensamos em juntar as duas coisas: partilhar com a sociedade um olhar diferenciado sobre esta temática e ao mesmo tempo ser uma proposta de geração de renda”.

Trindade da rua

Abrigados em duas igrejas abandonadas em Água de Meninos, os projetos da Comunidade da Trindade promovem ações para melhorar a vida de moradores de rua de Salvador

A ideia levou um ano sendo maturada, em encontros que reuniam 15 pessoas, entre as cerca de 40 que viviam na comunidade. A Ação Social Arquidiocesana (ASA), vinculada à igreja católica, passou a dar apoio institucional à empreitada.

Em dezembro de 2006, imprimiram na gráfica de A TARDE, parceiro do projeto, o número zero do jornal Aurora da Rua. Estava impresso o sonho, mas feito mesmo para ser teste, não chegou a circular. Em março do ano seguinte, saiu a primeiríssima edição. O lançamento foi na praça da Piedade. Era a segunda das três partes.

O número 1 da Aurora apresentava o “jornal diferente”; trazia uma reportagem sobre o Carnaval dos excluídos; registrava o assassinato de três moradores de rua numa única semana. Também estava ali exibido o código de conduta que os vendedores, todos maiores de 18 anos, deveriam seguir, sendo o primeiro mandamento “cuidar de si mesmo e respeitar os demais”.

O primeiro grupo de vendedores reuniu 16 moradores ou antigos moradores de rua. Todos passaram antes por um treinamento de três dias. Cada exemplar custava R$ 1, dos quais R$ 0,75 ficavam com eles. Desde o ano passado, a Aurora virou revista, e hoje custa R$ 2 (R$ 1,25 são o lucro do vendedor).

A sede da Aurora, que integra a rede internacional de jornais de rua (INSP, na sigla em inglês), fica numa casa rosa no entorno da igreja da Trindade. Os móveis da recepção são feitos de materiais recicláveis, assim como os quadros e objetos de decoração.

Na salinha ao lado trabalha a jornalista Iris Queiroz, que integra a diminuta equipe da publicação desde 2011. É ela quem coordena as oficinas de texto com os moradores de rua para definir o tema de cada edição – veiculada a cada dois meses – e para recolher histórias e depoimentos para as reportagens, ao lado da também jornalista Carlusi Abreu. Voluntários, claro, são muito bem-vindos.

Volta e meia os vendedores também colaboram com produções próprias. Na edição mais recente da revista, que fala sobre os sonhos para o Brasil neste ano eleitoral, há dois poemas feitos por eles – o grupo hoje oscila entre seis e dez pessoas.

Um deles foi escrito por Matias Florentino, que há quatro anos conheceu a Aurora. “Os políticos dizem que falam verdades... Mas que verdades são essas que deixam os nossos irmãos deitados no chão? / Em cima do papelão, em meio à escuridão... / Eta olho do dragão! Eles querem tirar nossa fé, mas Deus não nos abandonará. Ele nos deu o dom de amar./ Por isso, mesmo sentindo tanta dor em dias de terror, eu digo ‘eu sou da rua com muito amor’“.

Matias costuma vender a revista nas portas de igrejas – como a Nossa Senhora da Luz, na Pituba, e a Santa Rosa de Lima, no Costa Azul – e nas entradas de faculdades públicas e privadas. Diz que o dinheiro que ganha não é muito, mas “dá para sobreviver”.

O que ganhou mesmo foi respeito, coisa que não se paga em moeda. “Antes, quando eu tava na rua, as pessoas tinham um olhar arrogante, como que dizendo que eu tava ali porque queria, porque era vagabundo. Agora, já me olham de outro jeito”.

Nascido em Brumado, no interior da Bahia, Matias conta que morou por 16 anos nas ruas, no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador, onde está há “nove anos, cinco meses e 29 dias” (a conta dos dias, naturalmente, ficou desatualizada). Na sua vida cabem bem umas cinco ou seis, tantos são os episódios que se sucederam no curto espaço dos seus 43 anos.

Diz que começou a beber aos 7, incentivado pela mãe, que achava bonito dar cachaça para ele tomar, e aos 9 “já estava alcoólatra”. Aos 13, apareceu em Brumado um caminhão levando gente para cortar cana em São Paulo, e ele foi. Desde aí andou para um lado e outro, trabalhando aqui e ali, servindo até como mula na Tríplice Fronteira entre o Paraguai, o Brasil e a Argentina.

O dinheiro que conseguia, de bico ou catando latinha, usava para comer e comprar cachaça. “Entrar em contêiner de lixo de cara lisa, com aquele cheiro... Eu não tinha coragem, não. Se não tomasse uma, não ia”. Conta que um dia uma criança que acompanhava a mãe distribuindo sopa para moradores de rua, nas bandas da Baixa dos Sapateiros, onde dormia, perguntou por que ele não parava de beber. E no dia seguinte, diz, feito um milagre, parou. Reinventou-se. “É uma imagem que eu carrego até hoje”.

Matias vive atualmente na igreja da Trindade. A comunidade inteira, a de dentro e a de fora do templo religioso, reúne cerca de 60 pessoas. Às quintas-feiras, às 19h, acontecem celebrações ecumênicas abertas a quem quiser chegar, para onde vão muitos que ainda vivem nas ruas, com direito a banquete de encerramento, para aquietar corpo e espírito.

Além das vendas nas ruas, 75 pessoas e duas empresas assinam a Aurora, o que ajuda a pagar os custos de produção e impressão dos seis mil exemplares. Henrique orgulha-se de ter conseguido manter, nesses 11 anos, a “fidelidade à dupla intuição” de servir como fonte de renda à população de rua e produzir conhecimento sobre estes moradores. “Conseguimos manter um cuidado com o conteúdo. Não tem sudoku, nem receita de comida para encher página”.

Questões fundamentais

Na última década, a Aurora mudou de formato, mas não de essência, como se vê, e o mesmo pode ser dito da realidade da população de rua de Salvador. Henrique acredita que o perfil alterou-se bastante nesse período, com o apoio de políticas públicas de moradia, mas as questões fundamentais permanecem as mesmas. “As pessoas passaram a dormir menos nas ruas, foram para albergues ou quartos pagos com o auxílio-aluguel. Isso é muito positivo, mas a situação de abandono, de solidão, de miséria, que viviam antes à vista de todo mundo, continua presente nessa nova estrutura”.

A Secretaria Municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza (Semps) mantém 10 albergues em Salvador, chamados pelo órgão de Unidades de Acolhimento Institucional, totalizando 500 vagas. Atualmente, 400 pessoas estão abrigadas nestes locais.

Elas podem permanecer nas unidades por um período de três a seis meses. Após este tempo, informa a Semps, “aqueles que adquirem a autonomia necessária para gerir a própria vida” passam a receber auxílio-moradia no valor de R$ 300 mensais. Hoje, 1.037 homens e mulheres ganham o benefício.

Mas existem ainda, aos milhares, os que vivem às vistas de todo mundo. Uma pesquisa realizada no ano passado pelo Projeto Axé, em parceria com a Universidade Federal da Bahia (Ufba), o Movimento Nacional da População de Rua e a Defensoria Pública da Bahia, estimou que existam entre 14 mil e 17 mil pessoas em situação de rua em Salvador.

A Semps trabalha com um número bem menor. O órgão não possui um censo atualizado, mas baseia-se nos registros dos atendimentos em unidades voltadas para este público, como os Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centros POP), que contabilizaram, até o ano de passado, cerca de 5.900 pessoas moradoras de rua.

E para fazer por esses, sejam quantos forem, de fato, nasceu o Levanta-te e Anda, a terceira ponte da Trindade. O projeto foi criado há 10 anos, em outra igreja de Água de Meninos que estava abandonada há cerca de 30 anos, a São Francisco de Paula.

Um flamingo, uma zebra e um sapo, todos feitos com pneus e demais materiais reciclados, recebem os moradores de rua, povoando um jardim cheio de cor e vida. No portão de ferro da igreja está pendurado o aviso de que o horário de entrada é às 13h30, sendo 40 o total de acolhidos.

Ali, todos os dias, eles podem tomar banho, lavar roupas, se alimentar, tomar um café, uma água gelada, não importa o jeito que cheguem. Muitos vêm maltrapilhos e ainda sob efeito do álcool e outras drogas. A ideia é que despertem o desejo de sair das ruas.

A assistente social Gilcilene Ferreira, conhecida como Lena, coordena a ação desde o começo. Enquanto os acolhidos assistem a um filme na televisão, ela conta que todos chegam ali voluntariamente. A equipe não vai à rua chamar ninguém. ”O primeiro passo é que eles queiram fazer essa transformação. Se não tiver essa vontade, não adianta”.

A maioria dos que vão até lá, depois de ouvir de um e de outro colega sobre o Levanta, vive pela região do Comércio, mas também vem gente do Aquidabã, da Piedade, da orla. A maioria, 90%, são homens.

Cada dia da semana, há uma atividade diferente. Na segunda, são exibidos filmes de superação; na terça, há atividades para elevar a escolaridade; na quarta, são agendados tratamentos de saúde, em parceria com as Obras Sociais Irmã Dulce; na quinta, é dia de cuidar da espiritualidade, com mais filmes e culto ecumênico; e a sexta está reservada para divertimentos, que ninguém é de ferro. Tem karaokê, comemoração pelos aniversários, oficinas de pintura, jardinagem, teatro, artesanato. “Nós não somos um projeto assistencialista. Queremos empoderar essas pessoas, de fato, agir na esfera da garantia de direitos”, diz Lena.

Em parceria com a Defensoria Pública, os moradores de rua também podem retirar documentos perdidos e resolver pendências jurídicas. Quem quiser recebe ainda atendimento psicológico e é encaminhado para tratar da dependência química, nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps).

E para aqueles que buscam trabalho, há uma ajudinha para elaborar o currículo. Quando o empregador pedir o comprovante de residência, podem levar as contas dali mesmo da igreja, transmutada em casa e endereço.

Acompanhamento

Na equipe de educadores do Levanta há ex-moradores de rua que são como referenciais ambulantes de que a coisa pode dar certo, embora o caminho seja árduo. “Quanto mais tempo na rua, mais difícil é sair dela”, conta Lena. “As políticas públicas falham quando imaginam que basta dar casa e trabalho. Essas pessoas precisam de acompanhamento”.

Um desses educadores é o carioca Gilberto de Souza, 56, que veio para a Bahia passar umas férias, em 1986, atrás de uma morena de Ilhéus, sua Gabriela, e não voltou mais.

Depois de perder o emprego numa obra em Salvador, passou a beber mais do que já bebia, brigou com a família, foi viver na rua. Há cinco anos, conheceu o projeto. Foi até lá porque soube que era um lugar onde podia se alimentar. Tomou gosto pelas oficinas de jardinagem, de pintura, e hoje orgulha-se de desfilar como exemplo. “Eu digo para eles que para Deus nada é impossível”.

Apesar de quase todos por ali falarem em Deus, o Levanta – mantido pela Ação Social Arquidiocesana, por meio das doações de fiéis – não é religioso, ao menos não no sentido doutrinário. Os acolhidos são convidados a participar da missa nas quintas, mas não é algo obrigatório.

Walter da Silva, 39, vai até lá todos os dias, mas confessa que ficou decepcionado na primeira vez em que pisou naquela igreja. Estava “aterrorizado”, querendo por tudo sair da rua, onde dormia havia dois dias, depois de brigar com a irmã por causa de droga. Imaginava que ali iria conseguir na mesma hora um lugar para morar.

Não foi assim. De todo modo, o convenceram a tomar um banho, comer alguma coisa, fazer uma aula de texto, de pintura. De arte e de ler ele gostava, foi ficando. Há quatro meses, Walter conseguiu uma morada, lá mesmo na outra igreja, a da Trindade.

Articulado, diz que o período em que viveu na rua, pouco mais de um ano, fez com que aprendesse a ser mais humilde, a ter mais respeito pelas pessoas. “Me tornei mais sociável. Eu era soberbo, prepotente, e tudo isso foi quebrado. Sou melhor hoje. E passei também a valorizar coisas simples, como tomar um banho, escovar os dentes, deitar numa cama”.

 

Cadastre-se em nosso informativo
  1. Nome
    Please let us know your name.
  2. Email
    Please let us know your email address.
  3. Captcha(*)
    Captcha
    Invalid Input