Infância e Juventude

Precisamos falar sobre suicídio

FONTE: ESTADÃO 

“É uma reação em cadeia. Torpor, caos, confusão, dor, sensação de impotência. É recolher os escombros depois de um tsunami. É um novelo de lã que não tem o fio da meada. Como agir? O que falar? O que fazer com a carteira em que sentavam aqueles alunos?”.

As reflexões e questões levantadas pela psicóloga e psicoterapeuta Karina Okajima Fukumitsu espelham os sentimentos de alunos, pais, professores e funcionários do Colégio Bandeirantes, de São Paulo. Tradicional instituição da cidade, famosa pelo alto desempenho dos estudantes, a escola virou manchete e assunto nas redes sociais devido à morte por suicídio de dois alunos seus no mês de abril.

O colégio prontamente contratou Karina depois do primeiro caso para desenvolver um trabalho de orientação da comunidade escolar e acolhimento ao luto daqueles que, a partir de agora, precisam aprender a conviver com as perdas de amigos e colegas.

As mortes engrossam uma estatística que aponta o aumento de suicídios entre adolescentes e jovens brasileiros. De 2000 a 2015, os suicídios aumentaram 65% entre pessoas com idade de 10 a 14 anos e 45% de 15 a 19 anos – a alta na média da população foi de 40%.

Na esteira dos acontecimentos no colégio Bandeirantes, várias outras instituições procuraram Karina. “Normalmente a equipe de coordenação da escola vem até mim porque eles são pressionados pelos pais, que exigem uma atitude”.

Esta entrevista busca desconstruir o tabu que envolve o tema e aponta para várias direções – o papel da família, talvez, sendo a principal delas.

Karina se apresenta como suicidologista. Com mais de duas décadas de experiência no trabalho de prevenção e posvenção em casos de suicídio, tem pós-doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP), é especialista em Gestalt-terapia pelo Instituto Sedes Sapientae e autora de livros sobre o tema, sendo o mais recente deles “A vida não é do jeito que a gente quer”, publicado em 2016.

Como a adolescência pode dialogar com a questão do suicídio?

A adolescência é uma fase de vulnerabilidade e de crise de identidade em que o indivíduo lida com mudanças e com a busca da autonomia, principalmente da separação em relação às figuras parentais. É essa transição. Quando a formação do adolescente acontece de modo funcional, torna-se uma fase de desenvolvimento bacana, pois ele e os pais entendem que tal separação é necessária.

Mas nem sempre isso acontece, pois existem algumas famílias disfuncionais e nestes casos, a família pode ser compreendida como o primeiro grupo violento com que nos deparamos. Mas, ressalto que cada caso é um caso e que não se pode generalizar a compreensão do sistema familiar. Sobretudo, devo endossar que a família cujo suicídio aconteceu não deve ser culpabilizada, pois os conflitos são inerentes ao núcleo familiar.

O pai fala: “eu te amo, e se você me ama, então você tem de fazer o que eu quero”. Logo, aquele direcionamento antes aceito, passa, agora, a ser motivo para brigas e conflitos. E o que aborrece o pai e a mãe é o fato de que o filho deles não vai mais segui-los. É uma afronta.

Essa é uma violência que, às vezes, os pais fazem aos filhos. Pais querem que os filhos sejam aquilo que eles esperam. Para um adolescente, isso é muito difícil. É preciso entender que o desenvolvimento passa por aquilo que eu chamo de “alforria existencial”. De uma mudança do status quo.

Quando essas crises com as figuras parentais são geradas, o adolescente pode se deparar, também, com um esvaziamento nesse espaço antes compartilhado com os pais. E este é um espaço muito bom para surgirem os transtornos psíquicos. E não por acaso eles começam a aparecer. Ao mesmo tempo, os pais tendem a não aceitar tais condições e este vazio existencial não é visto como um espaço fértil, mas como um vazio niilista, estéril, confrontador.

E nós não gostamos de mudanças. Nós sofremos com mudanças. Em qualquer processo de mudança que nos faça adentrar lugares de vulnerabilidade, o suicídio pode aparecer como pensamento. Agora, entre o pensamento e o ato em si há uma ideação e um planejamento.

Qual o nível de protagonismo que se espera dos pais?

Eles têm, mas não é a única responsabilidade. Porque o adolescente já está nessa toada de começar a buscar a autonomia. E acontece de os pais não conseguirem acessar os filhos, porque estes se isolam, não autorizam. Mas não podemos culpabilizar.

Qual é o papel dos pais?

Criar um desenvolvimento teoricamente funcional e dar amparo aos seus filhos. Por isso eu digo para os pais: nós precisamos criar uma cultura familiar, porque a família faz total diferença quando os adolescentes precisam.

Quais são as grandes angústias que passam pela cabeça dos jovens?

As grandes angústias estão vinculadas ao que eles poderão ser no futuro: que tipo de profissionais eles serão, se eles atingirão as expectativas da sociedade, dos pais e até as próprias expectativas. Existe uma cobrança muito grande para que o jovem seja potente e consiga se portar como se fosse um adulto.

E o bullying, o preconceito, o machismo…?

Lógico! Existem várias frentes de ataques. Nós começamos a nos perguntar o que está acontecendo com a vida dos nossos adolescentes.

Em que lugar o adolescente vai buscar amparo nesses momentos de crise?

O adolescente vai buscar pertencimento. É a ideia de que é preciso encontrar os seus pares. E os pares podem ser encontrados na internet, por exemplo. E é quando vemos coisas gravíssimas que acontecerem. Recentemente saiu uma reportagem na revista VEJA sobre o The H4ters, um grupo de curadores que administram um jogo online em que determinam várias tarefas para os jovens cumprirem – e a tarefa final é o suicídio. É o fenômeno da “Baleia Azul”.

Por que os jovens caem tão fácil no jogo desses grupos?

Porque os caras são sedutores. Eles se aproximam do adolescente pela vulnerabilidade, quando estão brigando com os pais, quando estão em crise, sofrendo. Eles jogam psicologicamente. É um jogo de poder. Os caras se aproveitam desse joguinho e dão acolhimento para a perturbação que já existe no adolescente. São ratos. Nesse jogo, o personagem é real, é o jovem, mas para esses grupos não existe o limbo entre o virtual e o real. É ter o poder de direcionar outras vidas.

Você acha que a sociedade está doente? O suicídio de adolescentes seria a ponta de um iceberg? De que iceberg estamos falando?

A doença é a negação das nossas vulnerabilidades, a falha e a falta de acolhimento para o sofrimento do outro. Ninguém mais tem paciência, ninguém mais tem tolerância para perguntar como o outro está. Nós não ouvimos mais os outros. Aquela coisa genuína do tête-à-tête foi perdida.

A cultura da felicidade plena deveria ser substituída por uma cultura do ouvir?

Talvez. O Guimarães Rosa diz que “a felicidade se acha é em horinhas de descuido”. Eu acho linda essa frase. Essa cultura de que a gente vai ser feliz o tempo inteiro é uma mentira. Temos que entender que viver significa sofrer. Porque você nasceu diferente de um objeto, que não vai reclamar. Os objetos e as coisas servem como intermediárias para as nossas relações, mas quando se lida com a própria precariedade, é você com você. O sofrimento pode ser precário.

O que tem a dizer aos pais de adolescentes de hoje?

É o que o meu marido disse uma vez para os nossos filhos: “o papai e a mamãe nunca fomos pais antes de vocês”. A onipotência de acharmos que temos de ofertar tudo o que não tivemos, como um repasse, como uma necessidade de substituição, é errado. É algo complicado. Eu ouço muitas vezes, de pais: “eu vou oferecer para o meu filho tudo o que não tive” e “eu vou impedir que o meu filho sofra, eu não suporto ver o meu filho sofrendo e frustrado”. Então, nessa costura, os pais começam a fazer absolutamente de tudo. Isso também é errado, porque quando se estabelecem limites – e o limite é prova de amor –, os pais têm condições de ajudar o seu filho na frustração, ainda que essa frustração seja com você, pai ou mãe. E você tem que aguentar.

O que é possível dizer sobre o caso dos dois alunos do Colégio Bandeirantes que se mataram?

O que eu posso dizer é que são duas pessoas completamente diferentes, com histórias completamente diferentes. Eles não se conheciam. Eram de idades e de turmas diferentes. Um estava no segundo ano do colegial e o outro, no terceiro. Portanto são histórias completamente diferentes. Qualquer outra coisa é especulação. O que é possível falar: houve suicídio por contágio? Não.

O suicídio de uma pessoa pode influenciar outras pessoas?

Influenciar não significa determinar. Se eu estou vulnerável e me mato, essa minha morte pode desencadear a sua vulnerabilidade. Mas você não vai se matar apenas porque eu me matei. Você vai se matar por causa do próprio sofrimento que já estava com você.

Ter acontecido duas vezes no mesmo lugar é mera coincidência?

Sim. Foi uma tragédia.

As escolas têm sido negligentes em saber cuidar da saúde mental dos alunos?

Tenho sido procurada por alguns colégios. Normalmente a equipe de coordenação vem porque eles são pressionados pelos pais, que exigem uma atitude da escola.

Os suicídios escancaram uma disfuncionalidade, mas esse não tem sido o foco. Não é um dever total observar sinais de alerta, ainda que seja bom saber identifica-los. Por outro lado, acho injusto e perigoso falar em negligência, porque algumas escolas têm orientação com o desenvolvimento emocional dos estudantes. O próprio Colégio Bandeirantes tem essa preocupação, embora eles tenham um rigor de exigência nos trabalhos. O colégio tem esse “lado humano” e eu fiquei muito feliz por isso.

É papel da escola estar atento às questões de saúde mental dos seus alunos, mas é da família a responsabilidade direta pelas questões de transtornos psíquicos e saúde emocional dos jovens. Agora, é preciso ter clareza de qual é o papel de cada um.

Qual é o papel da escola?

É educar, ofertar conhecimento e ajudar no desenvolvimento do aluno, inclusive socialmente. E o papel da família é orientar e ajudar emocionalmente, dar ao jovem base psicológica para os primeiros afetos. A maior importância tem que ser da família. A maior responsabilidade tem que ser da família. E outra coisa: os pais também precisam aprender a dosar a exigência dos filhos.

O Colégio Bandeirantes é famoso por ser uma escola exigente, rigorosa. A alta performance que algumas instituições exigem de seus alunos funciona como um fator capaz de aumentar os riscos de suicídios?

A autocobrança é um fator. Precisamos ajudar os nossos filhos a elaborar planos e planejamentos mais atingíveis, identificar a justa medida das potencialidades. É necessário ajustar cobranças com potencialidades. Todos têm que dar o máximo, mas dentro das próprias limitações. A vida não é do jeito que a gente quer.

Estamos falando de aceitar as nossas próprias limitações?

Exato. E de ajudar os nossos filhos a aceitarem as suas próprias limitações.

Colocar um filho em uma escola como o Colégio Bandeirantes pode ser um desafio a essas limitações?

Não necessariamente. Nem tudo é uma coisa ou outra. Isso nos confunde, porque sempre buscamos posicionamentos maniqueístas. Agora, muitas vezes são os pais quem escolhem o colégio em que colocar os filhos. Uma família pode escolher em que escola que filhos irão estudar. Acontece que existe um limite para algumas pessoas, mas não exatamente para escolas exigentes. Se os pais notam que o filho não aguenta a frustração, a pressão… Isso é muito mais uma discussão familiar.

Você foi contratada pelo Colégio Bandeirantes logo depois da morte do primeiro aluno. Poucos dias depois aconteceu a morte do segundo aluno. Como tem sido o seu trabalho na escola?

Uma das primeiras e mais importantes coisas com que eu trabalho quando há um suicídio é associá-lo e aproximá-lo com o que acontece após a passagem de um tsunami. Você escolheu aquilo? Não. O tsunami também não é uma escolha. No entanto, em ambos os casos, existe uma variedade de outras coisas em ação a tal ponto que não se sabe o que é de um e o que é do outro. Eu costumo resumir em uma pergunta: quem mata quem, quando um suicídio acontece? É o caos instaurado.

As orientadoras e coordenadoras do Colégio Bandeirantes foram ao meu escritório para conversarmos sobre o que fazer. E eu expliquei que, no primeiro momento, o fundamental é acolher o impacto do suicídio e reduzir ao máximo os danos futuros. Esse é o trabalho de posvenção. Porque o sofrimento não acolhido de quem ficou é mais sofrimento não visto, é mais comunicação interdita.

Nós chegamos à conclusão de que a escola precisava alinhar uma narrativa comum, para evitar o diz-que-diz sobre as causas da morte. E eu disse o seguinte: para falar abertamente que foi suicídio, mas que toda a verdade foi embora com a pessoa que se matou.

O Colégio Bandeirantes adotou uma postura corajosa ao assumir os suicídios.

Foi uma atitude pioneira. Exatamente para não fingirmos, não negarmos o sofrimento e todo o impacto que decorre dele. Não adianta tentar cuidar do luto e não olhar para a dor. Nós não podemos negar a situação, não podemos fingir que é um “faz de conta”, como outros colégios já fizeram, acobertando os verdadeiros acontecimentos. Até porque depois do suicídio ninguém é o mesmo. Não falar do suicídio é uma violência. É preciso falar abertamente.

Mas existem ações sendo feitas com os estudantes, professores e pais?

O trabalho de posvenção começa na escola justamente para dar o acolhimento para os alunos, pais, professores, coordenadores e orientadores. Eu fui contratada para fazer um primeiro programa de prevenção do suicídio. Nos dias que sucederam os suicídios, eu fiz os trabalhos com os coordenadores e professores. Depois, pelas próximas duas semanas, foram preparadas palestras para acolher os pais. E nas semanas futuras eu vou começar a lidar com os alunos.

Tem uma justificativa para termos escolhido fazer as coisas nessa ordem. Dentro de um avião, a instrução para o uso da máscara de oxigênio é: primeiro o adulto (ou responsável) coloca a máscara em si e depois na criança. Quando uma tragédia acontece em uma escola, a escola se torna um caos, fica em carne viva. Então temos que orientar as pessoas e criar uma atmosfera de acolhimento e de conhecimento a respeito do que se fazer em termos de ações.

Qual tem sido o retorno dos alunos? Como esses jovens que perderam amigos e colegas estão reagindo?

Muitas coisas vieram: “eu tenho culpa”, “eu tenho vergonha”, “eu deveria ter feito alguma coisa”. O suicídio provoca o sentimento de culpa, de vergonha, além da busca por explicações. Quando um tsunami acontece na sua vida, você se pergunta: “por que isso aconteceu comigo?”, “por que eu não fiz diferente?”, “por que eu não percebi que a pessoa precisava de ajuda?” Agora, às vezes a pessoa que se matou não pediu ajuda.

Quanto a ações dos próprios alunos, nós deixamos as salas decidirem, mas vamos incentivar e viabilizar homenagens. Tudo faz parte do processo de acolhimento do luto e temos que acompanhar. O que nós fizemos, efetivamente, foram rodas de conversas com os alunos das classes que perderam os alunos.

As aulas continuaram normalmente?

Continuaram. Mas as orientadoras pedagógicas estão preparadas para não exigir dos alunos que eles entrem em sala de aula.

Em termos de linha pedagógica, o colégio está revendo algo?

Também. A escola está revendo questões como provas colocadas juntas, encavaladas, o que aumenta a pressão. É lógico que é preciso rever. Ninguém nem nada é o mesmo depois de um suicídio. Nunca.

Os suicídios atingiram, também, o espaço físico da escola?

É uma reação em cadeia. Torpor, caos, confusão, dor, sensação de impotência. É recolher os escombros depois de um tsunami. É um novelo de lã que não tem o fio da meada. Como agir? O que falar? O fazer com a carteira em que sentavam aqueles alunos? Um aluno estava lá e depois de uma hora não está mais, depois de um dia não está mais, depois de uma semana não está mais… Isso é enlouquecedor, porque retira aquela referência. Os colegas ainda não sabem o que vão fazer com aquelas carteiras. Essa decisão tem que ser a longo prazo.

Além do mais, o suicídio nos obriga a refletir sobre nós mesmos.

A finitude do outro convida o olhar para a nossa própria finitude. Negar o suicídio é favorecer o tabu. Quando eu fui contratada pelo Colégio Bandeirantes, fiz questão de orientá-los a se posicionar e falar abertamente que as mortes foram mortes por suicídio. Quanto mais evitamos o sofrimento, maior é a nossa perturbação.

É possível retirar algo de bom de todo esse caos?

O lado bom é que os pais estão preocupados. Mas é, também, o desespero. Os pais estão olhando preocupados para os filhos, olhando para ver se tem algum sinal. Acho que o contraponto positivo do que aconteceu é que, agora, os pais passaram a olhar para uma coisa que não estava sendo vista, que não estava sendo observada. Porque mexe, né? Ninguém gosta de ficar nessa situação.

Como definir o suicídio?

O suicídio é um grito de socorro, é um ato de comunicação interdito e é o ápice do que eu chamo de “processo de morrência”. Falar de suicídio é falar de uma dor existencial decorrente de várias fragmentações e é falar de um intenso sofrimento psíquico que foi negado em vida, mas que, muitas vezes, é exposto na morte. O psicólogo clínico americano Edwin Shneidman, pai da suicidologia moderna, define o suicídio como “um ato definitivo para um problema temporário”.

Quais são as características do comportamento suicida?

Ambivalência, impulsividade e rigidez de pensamento. Outras características são os três D’s do comportamento suicida: desespero, desamparo e desesperança. O indivíduo entra em um isolamento existencial e mesmo que outras pessoas ofereçam auxílio, a ideia permanente é de que só a morte vai ajudar.

O que é o sofrimento?

O sofrimento é uma crise inerente ao ser humano. E o grande agravante do sofrimento é quando o evitamos, porque o quanto mais o evitamos, maior é o nosso grau de perturbação. Então, é como se o suicídio fosse o transbordar desse sofrimento psíquico que não é acolhido. Porque a pessoa negou o próprio sofrimento, não acolheu a si mesma e não foi acolhida pelos outros. A pessoa não é legitimada no meu sofrimento e começa a pensar na morte como a única possibilidade, a única solução.

É possível compreender o que leva ao suicídio?

O suicídio leva a verdade com a pessoa que se matou. Ele envolve pensamento, ideação, planejamento e o ato em si. É um caminho, um processo. Não podemos falar em uma causa única, pois é uma morte multifatorial. Existem fatores biológicos, emocionais, psíquicos e espirituais que levam a essa morte. Não podemos ser reducionistas. Devemos falar que são suicídios, no plural. Porque nós somos um todo com várias dimensões. Cada um sofre à sua maneira e cada um tem sua forma de enfrentamento.

O que o suicídio provoca em nós?

Impotência. O suicídio é uma morte repentina, inesperada e violenta. O suicídio é a concretização do absurdo da falta de sentido. Ele nos lança no lugar do não-saber.

É reducionista pensar que o suicídio é uma escolha?

Eu não entro nessa seara de falar “é uma escolha”. Agora, também existem os suicídios planejados, premeditados, espontâneos…

Sobre esse trabalho de prevenção que você faz. Quais pegadas os suicídios premeditados deixam? É possível segui-las?

Prevenção do suicídio não quer dizer nem previsão, nem evitação. Prevenção é buscar sinais de alerta. Um dos sinais de alerta: um indivíduo que expõe constantemente sua vontade de se matar e que, de repente, não fala mais sobre o assunto. Está aí uma coisa diferente para se observar. É o que eu chamo de “estranho alívio”. Outro sinal de alerta: uma pessoa muito desorganizada que começa a organizar toda a sua vida, que fecha a conta corrente do banco, que oferece objetos pessoais como presentes.

E a questão de o suicídio ser considerado um pecado por algumas religiões?

O suicídio é visto como pecado e como crime. É a construção de um tabu e a instauração de um estigma. Atualmente, por exemplo, eu evito falar em “cometer um suicídio”, pois a palavra “cometer” remete a cometer um crime ou um pecado. E não digo “o suicida”, mas “a pessoa que se mata”, porque não podemos confundir o ato com o indivíduo. A linguagem dificulta a compreensão do suicídio. E a maneira com que se maneja o comportamento suicida tem a ver com a percepção que se tem do suicídio. Entender o suicídio como um ato de covardia, é tratar a pessoa que se mata como covarde. Cada percepção gera uma ação.

O suicídio é um ato de coragem?

Suicídio não é loucura, nem covardia e nem coragem, porque não podemos adjetivar. Sofrimento tem adjetivo? Agora, nós conseguimos transformar tudo aquilo o que é ruim. É o que eu falo para os meus clientes que têm comportamentos suicidas: “Confie. Eu não tenho uma perspectiva de quando você vai conseguir enxergar vida, mas temos que ressignificar a sua maneira de viver.”

Existem grupos considerados “de risco”?

O grupo LGBT é grupo de risco. Porque o jovem antecipa que ele não será aceito. Ele já tem de lidar com a dificuldade que é se aceitar. É um grupo de vulnerabilidade para o suicídio. Eu tenho acompanhado jovens que querem “sair do armário” e é isso: “Como eu vou ser aceito pelos meus pais, pela minha família?” É uma confusão, é um sofrimento intenso.

Como o suicídio atravessa as desigualdades sociais?

Eu não vejo por esse espectro, que alguns teóricos enxergam. Tem a questão da sociedade de classes, mas eu não gosto muito de falar. Porque uma pessoa é da elite, então significa que ela é demasiadamente mimada e não tolera a frustração? Isso é reducionismo. Nós não sabemos, absolutamente, da vida das pessoas. Não é todo mundo que estuda em colégio particular que não aguenta lidar com a frustração. Eu vejo muitos estudantes de colégios públicos que também não aguentam a frustração. Não é parâmetro. É que tentamos buscar uma causa.

Por outro lado, uma vez ouvi do teólogo Leonardo Boff, em uma palestra na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que os números elevados de suicídios nas culturas mais desenvolvidas se devem à falta de caos. Eu achei lindo o que ele disse: “Falta de caos”.

 

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