Fonte: G1 - Imagem: Sora Shimazaki no Pexels

Constanza del Possa criou, junto a amigos de escola, a ONG Absorvendo Amor em 2018. Em três anos, já distribuíram cerca de 150 mil absorventes.

Enquanto as autoridades públicas não priorizam o combate à chamada pobreza menstrual, uma estudante do Rio dá exemplo de solidariedade. Faz três anos que Constanza del Possa criou uma ONG para arrecadar absorventes íntimos e distribuí-los entre adolescentes em situação de vulnerabilidade.

A ONG Absorvendo Amor foi criada em 2018, quando Constanza tinha apenas 14 anos. O projeto nasceu com a ajuda de amigos da escola quando o tema pobreza menstrual ainda era pouco conhecido. A iniciativa conquistou empresas e doadores.

“Eu me lembro que nessa primeira doação a gente conseguiu arrecadar mais de 3 mil absorventes, o que para a primeira ação de um projeto é incrível”, contou a adolescente.

Ao longo destes três anos, Constanza estima que a ONG Absorvendo Amor já tenha conseguido doar cerca de 150 mil absorventes. “Já impactamos mais de 7 mil mulheres”, disse.

A pobreza menstrual ganhou as manchetes nos últimos dias depois que o presidente Jair Bolsonaro vetou a distribuição gratuita de absorventes para estudantes de baixa renda e pessoas em situação de rua. O projeto tinha sido aprovado pelo congresso em setembro.

Pobreza menstrual é a dificuldade de acesso a absorventes. Isso pode acontecer por falta de dinheiro ou de informação. A necessidade, muitas vezes, põe em risco meninas e mulheres.

Segundo a professora Yvonne Bezerra de Mello, do projeto Urerê, que há anos se dedica ao trabalho social com crianças e adolescentes no conjunto de favelas da Maré, na Zona Norte do Rio, estima-se que, no Brasil, 26% das adolescentes não tenham acesso a absorventes.

“Isso é uma questão de saúde pública. Porque essas meninas usam miolo de pão, pano de chão, qualquer trapo que elas encontram em casa. Muitas vezes as casas não têm água, muitas vezes a comunidade não tem um saneamento básico, então isso provoca múltiplas infecções, como clamídia, doenças do trato urinário, doenças do colo do útero e até a esterilidade se for muito grave a infecção”, alertou a professora.
A médica Larissa Cassiano, que é ginecologista e obstetra, confirma os risco aos quais estas meninas estão expostas.

“Principalmente infecções, como do trato urinário, que podem ocorrer pela má higiene ou uso de produtos inadequados, infecções pélvicas, e essa infecções pélvicas podem evoluir para quadros mais graves que a gente chama de doença inflamatória pélvica que pode obstruir e causar alterações que vão impactar na fertilidade no futuro”, destacou.

O problema da falta de recursos é ainda mais grave porque muitas mulheres têm vergonha de pedir ajuda. A médica diz que falar de menstruação não pode ser tabu.

“Falar da menstruação como algo fisiológico, como algo que acontece com as mulheres e que não é uma vergonha, que não é algo que ela deve esconder, é o primeiro passo para a gente comece a pensar nisso”, enfatizou a médica.
“A pobreza menstrual é um problema gigante no Brasil. Uma em quatro meninas falta aula porque não tem acesso a absorvente. Elas podem perder 45 dias de aula por ano. Isso pode levar à evasão escolar, a tantos problemas, problemas que acabam impactando, por exemplo, nas faculdades, no mercado de trabalho”, alertou a jovem ativista Constanza.

No estado do Rio de Janeiro existe uma lei que autoriza a distribuição gratuita de absorventes nas escolas estaduais. A Lei 9404 foi sancionada pelo governador Cláudio Castro no mês passado. No papel, já está valendo. Mas, na prática o governo do estado informou que não há prazo para começar a acontecer.

A Secretaria Estadual de Educação disse que pediu um estudo técnico preliminar, exigido por lei em licitações públicas. Enquanto isso, estudantes que não têm recursos precisam contar com doações.

Já a prefeitura da capital anunciou que, ainda em outubro, vai distribuir absorventes para adolescentes matriculadas nas escolas municipais. A previsão é beneficiar cerca de 100 mil alunas