Fonte: CBN - Por: Gabriela Echenique - Imagem: Mikhail Nilov

Muito tempo depois do preconceito, vítimas de injúria racial ainda vivem uma rotina de medo, vergonha e reclusão.

Diante dessas consequências, até a mudança de cidade serve como estratégia para tentar superar o trauma. Segundo o último anuário de Segurança Pública, foram registrados 10.291 casos de injúria no país em 2020. A CBN ouviu pessoas que sofreram esse tipo de ofensa para saber como lidam com esses efeitos.

A professora Mônica Rosa foi vítima de ofensas racistas em uma cafeteria, num shopping do Rio de Janeiro. Um homem branco, de repente, passou a ofendê-la. Ela estava com o sobrinho, que não escapou dos ataques.

"Ele começou a gritar com o meu sobrinho, dizendo que meu sobrinho havia passado e sorrido para ele, debochando da cara dele. Começou a gritar, dizendo que ia furar meu sobrinho e chamando ele de 'preto sujo'. Então, o homem começa a me agredir, me chama de 'preta suja', de prostituta, e fala que aquele lugar não é para mim (...). Quando entro num espaço e vejo muitas pessoas brancas eu fico com medo. E se houver um cara como aquele? Porque eles estão aí, são muitos. E isso me trouxe um trauma. Hoje, eu faço terapia. Foi um terror. Felipe ficou muito mal, não gosta de tocar no assunto", relata Mônica.

A professora até pediu ajuda, mas ninguém fez nada. O caso ocorreu em 2020 e o agressor não foi punido. Mas o trauma fica. Com medo de ameaças e de retaliação, Mônica antecipou a mudança para São Paulo, onde vive hoje. Mesmo assim, ela tira algo positivo da história: na nova cidade, foi reconhecida por um homem que viu o caso na TV. Ele disse que conseguiu ajudar outra mulher, desta vez, no metrô de São Paulo.

A vítima foi Wélica Ribeiro, que ouviu de outra passageira que seu cabelo poderia passar alguma doença. Só que o irmão dela não se calou: começou a filmar e cobrar uma atitude dos passageiros, que também se revoltaram. “Muitas vezes, a gente, por se sentir constrangido, finge que não entende, a gente ignora. Eu acho que é um tempo que não podemos mais nos calar. Eu acho que, inclusive, até as leis têm que ser forçadas a mudar, justamente pelo som da nossa voz. Não existe mais tempo da gente se calar. É uma coisa que dói e não dá para fingir que não acontece”, afirma.

A agressora só saiu de lá direto para a delegacia, mas também foi liberada. Em apenas quatro meses, as denúncias de discriminação racial em São Paulo superaram as registradas em todo o ano passado: já foram 174 casos só neste ano.

O agressor de Izac Gomes também não foi punido. É o vereador de Embu das Artes, Renato Oliveira, que disparou ofensas a Izac, enquanto ele trabalhava, num condomínio do Rio de Janeiro. O parlamentar chegou a dizer que “preto fede” e foi detido, mas saiu pela porta da frente da delegacia. Já Izac foi demitido. Está desempregado, precisa de acompanhamento psicológico e passa por dificuldade financeira.

“Fazendo chacota comigo. Quando eu saí na frente dele, ele falou ‘daqui a pouco eu estou na piscina’. Saiu pela porta da frente. E eu estou aqui na minha, desempregado, com pico de ansiedade violenta. Tô fazendo um trabalho com uma psicóloga que me ajuda muito. Tive uma consulta com psiquiatra também. E vou ser bem sincero, no final, que não der em nada, eu não sei se vou suportar isso”, diz Izac.

Em Caldas Novas, a vítima foi Cauã Gomes, de apenas 16 anos. Enquanto jogava basquete, ouviu gritos de “macaco” da arquibancada. Hoje, sai pouco na rua, e já percebe os olhares da população. “Como a minha cidade é pequena, quando eu saio na rua - muito pouco, porque tenho um pouquinho de receio de sair na rua ultimamente - vejo muito mais olhares. Acho que das pessoas me conhecerem, saberem do que ocorreu. Dói ver muito mais o racismo”, declara.

Segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 10.291 casos de injúria racial no país em 2020. Santa Catarina concentra o maior número de casos. O Senado aprovou um projeto que endurece as penas da injúria racial. A punição passa a ser de até 5 anos de prisão e o crime passa a ser imprescritível e inafiançável. A proposta ainda precisa passar na Câmara.

A mãe de Cauã, Celize Gomes, diz que ver o filho nessa situação foi ainda pior. Na luta contra o preconceito, cobra mais punição: “a partir do momento que você está andando na calçada e alguém atravessa a rua, por medo, não somos iguais. Quando olham pro meu cabelo, que é natural, e acham que é sujo ou transmite doença, não somos iguais. Quanto entro na loja e ninguém me atende, mas duas vendedoras seguem uma cliente branca, nós não somos iguais”.