Fonte: Globo Rural - Por: Viviane Taguchi - Imagem: Pixabay

Reservas particulares de patrimônio natural se consolidam como negócios ecológicos ao oferecer atrativos como observar pássaros e contemplar vistas exuberantes.

Em 1986, o pecuarista Modesto Sampaio comprou uma fazenda de 100 hectares nas redondezas de Jardim, em Mato Grosso do Sul. A ideia era criar gado na propriedade, mas mal sabia ele que, bem no meio da fazenda, havia um buraco gigante que, tempos depois, soube, tratava-se de uma dolina, um tipo de depressão circular em forma de funil que pode ocorrer em terrenos calcários. Curioso, o fazendeiro foi assuntar, com os peões da região, sobre a história daquele buraco, que, de tempos em tempos, engolia seus animais.

Modesto ouviu histórias incríveis – e algumas até assustadoras. Conversou com a herdeira dos primeiros proprietários da fazenda e descobriu que a cavidade, descoberta em 1912, era um reduto de aves nativas do Cerrado.

Tempos depois, virou local de caça, tiro ao alvo e até mesmo desova de corpos e carros roubados. As aves coloridas que viviam lá sumiram, dando espaço para os urubus. Com a ajuda dos filhos e de voluntários, ele limpou a dolina. De lá, saíram quatro caminhões de lixo.

Passadas mais de três décadas, o buraco se tornou uma atração e tanto. Não pelas histórias colhidas pelo pecuarista, mas pelo seu esforço em recuperar a paisagem nativa e trazer de volta seus principais moradores.

Desde 2007, o Buraco das Araras é uma Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) de 30 hectares, que reúne mais de 156 espécies de pássaros. Com o plano de negócios em mão, Modesto e os filhos continuaram criando gado, mas descobriram que podiam ganhar dinheiro com a preservação ambiental.

Hoje com 81 anos, Modesto lembra que, quando comprou a propriedade, não gostava de ver dezenas de pessoas invadindo o local para a prática de tiro ao alvo nas araras. “Eu dizia que o novo patrão era muito bravo, que era para aquelas pessoas não irem mais lá”, conta.

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“Depois, mandamos cercar o buraco, para proteger os animais que caiam nele, e começamos a recuperar a mata, fazendo mudas, plantando. Criamos ninhos para as aves, e pensei que, se um dia duas araras voltas sem para o buraco, eu já estaria muito satisfeito.”

E elas voltaram, depois de dez anos, em 1996. Mas não foram somente algumas (as araras são aves monogâmicas e voam sempre em duplas). Mais de 120 casais de aves regressaram para o local para procriar e voar em espiral, contornando a dolina como numa coreografia ensaiada, assim como outras espécies de pássaros. As pessoas começaram a chegar para assistir ao espetáculo das aves, e não mais para caçá-las, e então a família fundou uma empresa de ecoturismo.

Rosevelt Sampaio, gestor do Buraco das Araras e filho de Modesto, contou que a ideia de transformar o local em uma RPPN só aconteceu depois da fundação da empresa de turismo. “Não tínhamos conhecimento nem informações sobre como criar uma reserva particular de patrimônio natural”, lembra.

Hoje, o Buraco das Araras é um dos locais mais procurados da região. A RPPN recebe, em média, 1.800 pessoas por mês, que pagam entre R$ 83 e R$ 288 para observar e fotografar os pássaros ou apenas contemplar a dolina. Modesto, que nem imaginava que poderia ter um plano de negócios ecológico, é o anfitrião oficial do local.

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