Fonte :  Fio Cruz 
Imagem : Pixabay

Lavar embalagens com água e sabão, evitar consumir alimentos crus e desinfetar pias e tábuas de corte com álcool 70: práticas que a epidemia do novo coronavírus inseriu na rotina dos brasileiros.

Mas até que ponto os alimentos e suas embalagens podem ser contaminados pelo coronavírus e infectar as pessoas? O médico veterinário Paulo Abílio Varella Lisboa, pesquisador do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/ Fiocruz), defende que, apesar de não haver evidências comprovadas de que os alimentos possam transmitir o vírus, é preciso, sim, manter esses hábitos e cuidados. Inclusive depois que a epidemia passar.

“Ainda não temos nenhum caso descrito de Covid-19 causado pela ingestão ou contato com alimentos”, explica. “Sabemos que o vírus Sars-CoV-2 precisa de um hospedeiro vivo para se multiplicar. Mas também sabemos que pode sobreviver em objetos e superfícies, embora não possamos assegurar por quanto tempo. Assim, em tese, ele poderia permanecer por algum tempo na superfície de alimentos, ou nas embalagens de plástico ou papelão de produtos alimentícios industrializados. Ao mesmo tempo, a ciência não mensurou ainda qual quantidade de contaminação nessas superfícies seria necessária para deixar uma pessoa doente”. Por isso, o jeito é mesmo manter a limpeza dos alimentos e suas embalagens.

O pesquisador alerta, porém, que os cuidados de higiene com os alimentos que a população vem tomando por conta do Sars-CoV-2 deveriam ser incorporadas à rotina mesmo após a pandemia. E que, mais importante do que passar álcool em embalagens pet, por exemplo, é a lavagem frequente das mãos: não adianta nada banhar todas as compras de mercado, se a pessoa não lavar bem as mãos após tocar a maçaneta da porta. Ou manusear a máscara de proteção enquanto estiver no mercado.

“É pouco provável que a exposição de alguém ao vírus numa embalagem de alimento seja suficiente para deixar uma pessoa doente. Porém, como ainda não temos certeza absoluta disso, continua sendo fundamental lavar as mãos antes e após desembalar ou manipular alimentos. Outras precauções adicionais a serem adotadas incluem limpar e desinfetar as superfícies (pias, mesas, bancadas, tábuas de corte e utensílios domésticos) e lavar regularmente as sacolas reutilizáveis. E, quando estiver manuseando alimentos, é muito importante evitar tocar nos olhos, nariz ou boca”, acrescenta.

Importância do cozimento
A maior fonte de transmissão do coronavírus, ressalta Paulo Abílio, continua sendo através de pessoas infectadas que emitem gotículas durante uma tosse ou um espirro, ou mesmo falando alto. Essas gotículas podem ser recebidas por outra pessoa que não tenha tido contato com o vírus. Além disso, uma pessoa pode se infectar depois de tocar em uma superfície, objeto contaminado ou mesmo na pele de outra pessoa, e depois levar sua própria mão à boca, ao nariz ou aos olhos. “Isso pode acontecer, por exemplo, ao tocar a maçaneta de uma porta, ou apertar a mão de alguém, e logo em seguida levar a mão ao rosto – um hábito natural, muito comum, que agora se tornou perigoso”, diz.

Outro ponto importante ressaltado por Paul Abílio está na preparação dos alimentos. Ele afirma que o cozimento adequado, acima dos 70 graus, consegue matar quase todos os microrganismos perigosos – inclusive o Sars-CoV-2. Os alimentos que requerem mais atenção, acrescenta, incluem a carne picada ou moída, os bolos ou misturas de carne e grandes peças de carne e aves inteiras. Congelar alimentos a menos de 5 graus também contribui para impedir o desenvolvimento do vírus.

Paulo Abílio ressalta que manter saudáveis e seguros todos os trabalhadores nas cadeias de produção e fornecimento de alimentos (como os frigoríficos, que no Brasil e no mundo têm se revelado grandes focos de Covid-19) é fundamental para evitar a escassez de comida no mundo. Para isso, os Ministérios de Saúde, Agricultura, Desenvolvimento ou similares de vários países – bem como a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Fundo das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e institutos de ensino e pesquisa – têm elaborado diretrizes, documentos e regulamentos nacionais de segurança alimentar.