Fonte: BBCBrasil - Imagem: Pixabay

Até outubro, imunização com a tríplice viral foi 79 pontos percentuais mais baixa do que em 2019

O Brasil é conhecido internacionalmente por ter o maior Programa Nacional de Imunização (PNI) do mundo e é referência em vacinas por causa do trabalho de instituições como o Instituto Butantan e a Fiocruz. Todos os anos, mais de 300 milhões de doses de imunobiológicos são distribuídas aos estados brasileiros. A falta de informação, no entanto, aliada com uma falsa segurança de que as doenças não existem mais, vem impactando os programas de imunização no território nacional. Um dos maiores exemplos disso é o sarampo, doença que foi considerada erradicada no Brasil em 2016 e voltou a atingir a população em 2019. Diante desse contexto, com o medo da doença, naquele ano, a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, atingiu 92% de imunização – 99,4% da meta. Em 2020, porém, até outubro, essa marca estava distante: foram vacinadas 11,7 milhões de pessoas entre 20 e 49 anos em todo o país – o que corresponde a 13% do público-alvo da tríplice viral, considerando a meta de 95%.

O sarampo é uma doença infecciosa grave e que pode levar à morte. A transmissão ocorre pela tosse, fala e espirro de uma pessoa contaminada perto de alguém saudável – e a única maneira de evitá-lo é através da vacina. Em 2020, até o mês de novembro, 8.261 pessoas tiveram o diagnóstico confirmado para sarampo no Brasil – 7 foram à óbito. “Nós temos problemas de falta de vacina, problemas com dificuldade de acesso da população à vacinação, o calendário atual de vacinação é complexo. No primeiro ano de vida, o bebê precisa de 8 a 9 visitas para receber 15 vacinas. Os postos de saúde funcionam de segunda à sexta em horário comercial. As pessoas estão trabalhando, muita gente tem dificuldade de acesso“, é o que avalia a docente de Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Ana Marli Sartori, sobre alguns dos motivos que contribuem para a baixa adesão.

A politização dos assuntos ligados à saúde e à ciência, além do excesso de informações falsas, também estão entre os motivos que abrem espaço para que as pessoas hesitem em se vacinar. “A confiança nas instituições, nos profissionais de saúde e nos governantes impacta diretamente nas coberturas vacinais. A hesitação é um termo que a saúde coloca como um dos principais motivos disso. A pessoa que confia nas vacinas, confia. O antivacina não adianta discutir, porque ele não vai ouvir. Mas o hesitante é impactado por tudo isso”, completa o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha. É isso o que vemos também com a espera pela vacina contra a Covid-19. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha, divulgada no dia 12 de dezembro, indicou que o percentual de pessoas que pretendem se imunizar contra o coronavírus caiu de 89% para 73% de agosto a dezembro. Os que não pretendem tomar uma vacina subiu de 9% para 23% no mesmo período. Quem ainda não se decidiu sobre o assunto teve uma leve alta – de 3% para 5%.

Outras doenças sentem o impacto dessa baixa cobertura vacinal, como é o caso da poliomielite. A famosa “vacina da gotinha” também viu o número de interessados cair de forma considerável. O que mais preocupa, neste caso, é que ela deve ser tomada até os cinco anos de idade, logo a responsabilidade é dos pais e responsáveis. Em 2019, a cobertura vacinal contra a paralisia infantil ficou em 83,7%. Em 2020, até outubro, 6,3 milhões de crianças de 1 a 5 anos foram vacinadas. Isso corresponde a 55% do público-alvo, estimado em 11,2 milhões de crianças. Apesar de o Brasil estar livre da poliomielite desde 1990 e ter recebido em 1994 a Certificação de Área Livre de Circulação do Poliovírus Selvagem da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), essa chancela não é para sempre.

Qualquer descuido em relação à vacina, a única forma de prevenção da polio, pode fazer que a doença volta a ser endêmica. Esse é o caso da Nigéria, do Paquistão e do Afeganistão até os dias atuais. Esses dois últimos registraram pelo menos 132 casos de poliomielite em 2020. “As doenças ficam controladas pela vacinação, mas elas podem voltar. Esse esquecimento faz com que as pessoas não valorizem tanto as vacinas. Muitas vezes nem existe um pensamento contra a vacina, mas ela não é priorizada. Vai deixando pra lá e a gente chega nessa situação“, explica a docente Ana Marli. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já fez uma chamada de risco de o aumento da poliomielite no mundo inteiro. “A situação da polio hoje é pior que a do ano passado. A do ano passado é ainda pior que a do ano anterior. Estamos tomando uma sequência de três anos da piora da doença no mundo. Isso faz com que todos os países tenham risco de reintrodução da polio. E, com a nossa baixa cobertura, esse risco certamente passa a ser importante aqui.”