Fonte: Profissão Biotec - Imagem: Divulgação

Para muito além da culinária, o método inovador na medicina utilizando pele de tilápia para o tratamento de feridas, técnica brasileira premiada.

Diversos estudos buscam tratamentos mais eficazes para as lesões provocadas por queimaduras. Atualmente, os tratamentos comuns incluem aplicação de tópico estimulante para epitelização, enxertos, escarotomia, curativo oclusivo, tratamento cirúrgico, entre outros protocolos, mas pesquisadores brasileiros da Universidade Federal do Ceará (UFC) desenvolveram um método inovador utilizando pele de tilápia!

A queimadura é uma lesão dos tecidos orgânicos, provocada pelo contato direto com uma fonte de calor quente ou fria, radiação, produtos químicos, entre outros. Ela pode variar desde uma pequena bolha até formas graves, que desencadeiam respostas sistêmicas proporcionais à extensão e à profundidade.


Camadas da pele: a mais superior é epiderme; seguida por derme; tecido subcutâneo (hipoderme). Fonte: adaptado de Freepik


1º grau: atinge a epiderme. Apresenta vermelhidão sem bolhas e discreto inchaço local. Dor presente;

2º grau: atinge a epiderme e parte da derme. Há presença de bolhas e a dor é acentuada;

3º grau: atinge todas as camadas da pele, músculos e ossos. Ocorre necrose da pele (morte do tecido). A dor é ausente, devido à profundidade da queimadura, que lesa todas as terminações nervosas responsáveis pela condução da sensação de dor.

Feridas por queimadura podem ser extremamente agressivas e seu tratamento doloroso. A troca constante de curativos, por exemplo, além da dor, pode gerar contaminação. Foi então que o Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da Universidade Federal do Ceará (UFC) desenvolveu um método biotecnológico inovador, que vem se mostrando bastante eficaz: o uso da pele de tilápia.




Pele de tilápia sendo tratada para utilização em feridas. Fonte: flickr

Como surgiu a ideia?

A pesquisa teve início em 2014, a partir de uma ideia do cirurgião plástico paraibano Marcelo Borges, que trabalha com queimados há mais de 35 anos. Borges leu uma notícia publicada no Jornal do Commercio, que dizia que a pele da tilápia estava sendo usada para acessórios femininos.

“Daí me veio a ideia de combinar a delicadeza e a resistência desse elemento em um tipo de curativo que pudesse ser utilizado nas queimaduras”, lembrou ele durante o evento de inauguração do Banco de Pele Animal, na UFC.

A pele de tilápia é resistente e elástica, tendo duas vezes mais colágeno que a pele humana. Tais características conferem vantagem em relação aos curativos/tratamentos tradicionais, como a redução da dor sentida com a constante troca dos curativos, pois são menos frequentes com essa técnica.

No caso da pele da tilápia, a dor vai sendo gradativamente reduzida, já com o tratamento convencional ela começa a diminuir apenas na segunda semana. Os médicos também constataram uma considerável redução do tempo de cicatrização das lesões.

Com eficácia comprovada no tratamento de queimaduras e na reconstrução vaginal em pacientes com síndrome de Rokitansky e câncer de vagina, a pele de tilápia foi utilizada também para reconstrução vaginal pós-cirurgia de redesignação sexual de uma paciente trans de Campinas (SP). Trata-se de procedimento inédito no mundo.

“Estamos desenvolvendo produtos que ainda serão testados: válvulas cardíacas, vasos para revascularização, para hérnia abdominal, dentre outros. São inúmeros os produtos desenvolvidos laboratorialmente”, afirma o presidente do Instituto de Apoio ao Queimado (IAQ), Edmar Maciel Lima Júnior, que coordena as pesquisas ao lado do Prof. Odorico de Moraes, coordenador do NPDM, em notícia publicada no site da UFC.

Tratamento em Animais
O uso de pele de tilápia no tratamento de queimaduras não é exclusivo para seres humanos. Animais feridos em 2020, durante as queimadas no Pantanal, no Mato Grosso, também receberam aplicação da pele de tilápia para cicatrização das lesões. Utilizada pela primeira vez em animais silvestres, a técnica cearense foi levada ao Centro-Oeste por uma equipe de pesquisadores da UFC em parceria com a Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Mato Grosso e ONGs atuantes na região. No Hospital Veterinário da Universidade de Uberaba, no triângulo mineiro, a técnica foi aplicada para uso semelhante, tanto para animais com queimaduras oriundos da região, quanto para reconstrução de pele em animal ferido por atropelamento.

Tratamento com pele de tilápia em tamanduá com queimaduras, realizado na Universidade de Uberaba. Fonte: arquivo de HVU-Uniube e UFC.

Dos hospitais para a televisão
A série de TV The Good Doctor (Sony), citou o tratamento em seu 6º episódio, onde um dos médicos da equipe tenta salvar a vida de uma mulher atingida por queimaduras de 2º e 3º grau. Ela está com um grave ferimento no pescoço, quando o jovem cirurgião Shaun Murphy (Freddie Highmore), diagnosticado com autismo e síndrome de Savant, sugere o tratamento experimental com a pele do peixe.

O tratamento foi assunto também na série Grey’s Anatomy (Sony) no episódio 17 da 15ª temporada. O médico cirurgião plástico Jackson Avery (Jesse Williams) revoluciona o tratamento de queimaduras ao substituir a pele humana queimada por pele de peixe. Em uma das cenas, os personagens mencionam que os custos e efeitos colaterais são menores que os de tratamentos-padrão e afirmam que a descoberta é brasileira.

Reconhecimento e premiações para a técnica
A técnica já conquistou o Prêmio Abril & Dasa de Inovação Médica, na categoria Inovação em Tratamento. Além disso, foi premiada internacionalmente em trabalho experimental recebendo o Prêmio Ouro, no 15th Annual Child Health Research Days, organizado pelo Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil de Manitoba, em Winnipeg, no Canadá. Mais recentemente, foi vencedora do Prêmio Euro Inovação na Saúde, concedido pela indústria Eurofarma Laboratórios S.A., que é tido como o mais importante da medicina nacional.

Este método inovador da utilização da pele de tilápia no tratamento de ferimentos como queimaduras é outra grande conquista da ciência brasileira. A técnica patenteada já é, inclusive, exportada para outros países.