O gozo e o risco

Vicente Serejo
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Quem puxa conversa com um eleitor eufórico do prefeito Alysson Bezerra, de Mossoró, percebe o axioma que afasta a visão do centro crítico. O gozo de argumentar que ele dizimou, de uma vez, as oposições, com o segundo e o terceiro colocados distantes cem mil votos do seu patamar de maioria. É uma verdade, mas não é a única. As leis da contabilidade estão vinculadas à exatidão dos números, não, tão necessariamente, aos efeitos de uma hegemonia sobre a vida de uma sociedade.
A vitória absoluta e absolutamente incontestável, não se pode negar como mérito. Do mesmo modo que a força hegemônica é inevitavelmente empobrecedora da política para o conjunto orgânico que reúne a todos. E ainda pior: se o que sobrar do outro lado não tiver a experiência indispensável a uma boa retórica de oposição. O centro crítico é norteador dos interesses da coletividade, mas desde que não seja a voz do contra, mas a que interpreta as razões e as desrazões das decisões do governante.
No caso específico de Mossoró há uma memória que atesta as mazelas do mando. Foi por não admitir a alternância de poder, renovando-se falsamente na própria sala de jantar, que o grupo Rosado exauriu-se por si mesmo. Deu as costas para a formação de novas lideranças não familiares e acabou esgotado, depois de mais de meio século de serviços prestados. O modelo de ocupação absoluta nem mesmo permitiu outros heróis de fora da família. Basta só olhar nomes, ruas e até seus monumentos.
Não significa dizer, muito menos como uma afirmação categórica, que será este o destino do hoje prefeito Alysson Bezerra, embora já tenha assumido o segundo mandato sob a áurea mágica de possível candidato a governador. É preciso ter uma consciência crítica muito forte para ser maior e de mais elevada magnitude política para não fundar, nele mesmo, a versão midiática do coronelismo jovem. O grupo Rosado também foi jovem, vitorioso e imaginou que seria eterno no seu mandonismo.
O segundo mandato de Alysson Bezerra pode ser definitivo para consolidá-lo como um líder e estadualizar a sua liderança. Resta saber se os líderes crescem sozinhos, só com seus aliados e sem ter adversários. Se é possível construir-se sem o tempero das contrafortes e dos contrapontos, até para evitar a pobreza de não ter voo próprio, mas uma das asas de alguém detentor de estrutura material, o oxigênio que enche os pulmões. A independência é um belo sonho, desde que se realize de verdade.
Sem oposição, o governo de Alysson tem hoje o tamanho de toda a Mossoró, nos seus limites humanos e físicos. Resta saber se esse gigantismo é o fruto do alívio daquele mesmo outro mando e que um dia, exaurido, desapareceu e, por isso, episódico. Ou se vem para durar, fecundar a formação de novas lideranças. Se for o mando pelo mando, no populismo fácil dos risos e dos afagos, não há de ser construtor de um bom futuro. Sem oposição crítica e responsável, ninguém governa. Manda.
PALCO
CHAMA – A nomeação de Andréa Dias, irmã de Álvaro, para a Secretaria da Mulher, evitou que crepitasse uma chama de insatisfação. A atitude do prefeito Paulinho Freire foi de sabedoria política.
ALIÁS – Ninguém se engane: Freire vem acomodando os pedidos dos vinte vereadores que apoiaram sua eleição. Presidiu a Câmara três vezes e conhece muito bem os caminhos para mantê-la satisfeita.
FRAUDE – É fraudulenta qualquer surpresa em torno de ligações clandestinas de esgoto em Ponta Negra e alguns pontos da Via Costeira. Há décadas que o problema não tem quem enfrente de fato.
ALIÁS – Há umas boas três décadas, para fixar o mínimo, foi encontrado o esgoto subterrâneo de um grande hotel da Costeira por entre as pedras e já bem dentro do mar. Um caso único, mas aconteceu.
TOP – O Colégio CEI, da Romualdo Galvão, mostra mais uma vez toda a sua performance e emplaca cento e dez alunos com notas acima de 900 pontos. E, até agora, 36 acima de 960 pontos na redação.
TRAÇO – Os franceses não escondem o velho ranço todas as vezes que o sol ilumina um talento fora do seu reino. O artigo do Le Monde contra Fernanda Torres mostra: a inveja também mora em Paris.
POESIA – De Cecília Meireles, no poema da lua, por entre leve e suave tintura poética de sua velada e calma melancolia: “Tenho fases, como a lua. / Fases de andar escondida, / fases de vir para a rua…”.
PRÊMIO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, arrastando tédio que a tarde deserta derramava no chão sujo da rua: “Pior do que negar o prêmio a quem merece é premiar o medíocre”.
CAMARIM
BREU – O levantamento revela que a escuridão que cobre Natal, chama o medo e facilita os atos de violência: há seis mil postes de lâmpadas apagadas na área urbana da cidade. E mantê-los acesos, é bom lembrar, não é favor o poder público: sua gente paga mensalmente a Taxa de Iluminação Pública.
CAUSA – Tudo começa com a nova concorrência para a manutenção vencida por uma nova empresa, o que é normal e até salutar pela renovação. Só que a importação é feita via produtores chineses e há sempre, a vencer, a via crucis da burocracia. Desafio para os primeiros seis meses da administração.
MACHADO – O calendário editorial brasileiro tem uma previsão especial este ano: o lançamento da ‘Coleção Machado Fora da Caixa’, em 26 volumes. Previstos, ainda, ‘O Jardim das Oliveiras’ da poetisa Adélia Prado. Seriam lançados na Festa Literária de Paraty’, e em dada ainda a ser marcada.
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