Perigosíssimo – Tribuna do Norte

Vicente Serejo
[email protected]
Ninguém é feliz ou infeliz sozinho. Algumas vezes amigo, outras inimigo, o tempo vai jogando nos ombros descobertas e redescobertas que vão se amontoando como fardos da grande travessia. Navegamos com nossos anjos e demônios, entre as águas mansas e doces da alegria, ou as pedras escuras da tristeza. No cais de cada porto, embarcam os fantasmas das virtudes e dos pecados. Por isso, é tão verdadeira a grave advertência de Guimarães Rosa: viver é muito perigoso.
Lembro de uma entrevista que fui fazer com Newton Navarro. Chegamos à sua casa, ali em Nova Dimensão, e foi Salete quem nos recebeu, a mim e ao fotógrafo Clovis Santos. A entrevista estava marcada com antecedência. Navarro desceu do primeiro andar, sentou na poltrona de frente ao sofá, e ficamos naquela conversinha branda, amansando as palavras. Estava tocando os detalhes finais de uma exposição no Rio, acho que na sede do hoje Palácio Gustavo Capanema.
O sol iluminava o pequeno jardim, entrava pelo janelão e clareava com absoluta nitidez o rosto daquele homem de gestos leves. Pediu a Salete um café. E, como sempre, relembrou sua amizade com meu tio, Antônio Luiz de Aguiar Mattos Serejo, morto precocemente vítima de uma bala perdida. Era como se pintasse as velhas madrugadas de conversa e cerveja no Grande Ponto, nas mesas do Cisne, o bar dos boêmios, desfiando suas antigas lembranças de um tempo morto.
Navarro foi sempre uma figura quase familiar. Desde aquele 1960, quando viemos morar em Natal. Ficamos uns poucos dias com a minha avó Edith, uma casinha pequena, de duas arcadas, nos fundos da hoje Padaria Petrópolis, do lado da Potengi. Do lado da Afonso Pena, ficava a casa de D. Celina, mãe de Navarro. Foi ali que vivi o espanto de ver passar uma passeata de Aluízio Alves. Os galhos verdes andando e Luíza de Paula cantando que ele vinha do sertão, lá do Cabugi.
Falou demoradamente sobre a exposição, a primeira nacional, não sem revelar a vaidade de ir além desse mar, desse rio e desses morros. Nunca pensei que anos e anos depois, como se fosse magia escrita nas estrelas, terminaria vivendo o privilégio de adquirir, por intermédio de uma amiga comum, o Azulão e o Pintassilgo daquela exposição. Os pássaros que teriam encantado o poeta Carlos Drummond de Andrade ao visitar a exposição, no Rio, mas sem encontrar Navarro.
Clovis pediu para fotografá-lo na sua prancheta. Foi muito gentil. Subiu a escada e ficou como se estivesse desenhando. Descemos, e outra vez na sala, Salete serviu mais um café. E nunca esqueci quando o poeta do ‘Subúrbio do Silêncio’, destilou o azedume de viver das artes plásticas naquela Natal desinteressada e insensível. E disse, grave: “Se Guimarães Rosa tivesse vivido em Natal teria ido direto ao superlativo absoluto sintético. E teria dito que viver aqui é perigosíssimo”.
PALCO
PASSO – A vitória do senador Rogério Marinho ao eleger o novo presidente da Federação dos Municípios no RN, o prefeito Babá Pereira, não é só uma derrota da governadora Fátima Bezerra.
MAIS – Revela duas consequências políticas ao mesmo tempo: um claro sinal da perda de espaço da governadora. É um passo à frente e com efeitos nas eleições para o governo nas urnas de 2026.
ATENÇÃO – Os 62% de aprovação da gestão Álvaro Dias consagra o ex-prefeito e atesta o peso na eleição de Paulinho Freire. Um patamar elevado e difícil de ser atingido pelos seus sucessores.
HISTÓRIA – Nas livrarias, o novo livro do professor e cardiologista Paulo Davin – “Um novo tempo, a chegada da UTI na Hemodinâmica e na Cirurgia Cardíaca no RN”. Uma histórica inédita.
DOC – A equipe de produção da TV Câmara vai começar a gravar um documentário sobre a vida e a obra do escritor Hélio Galvão. Ele é o grande historiador da Fortaleza da Barra do Rio Grande.
SUDEZ – A direção da Pinacoteca do Estado não deu ouvidos à recomendação do Conselho de Cultura e continua nomeando o Palácio Potengi de ‘Palácio da Cultura’. Uma teimosia insensível.
POESIA – Da grande poetisa portuguesa Florbela Espanca, versos assim: “E se um dia hei de ser pó, cinza e nada / que seja a minha noite uma alvorada, / que me caiba perder para me encontrar”.
VÍCIO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, depois de resistir aos versos rasos de uma poética artificial: “O grande poema há de biografar, de alguma maneira, a vida do seu leitor”.
CAMARIM
MERMOZ – Chega a Natal dia 24 a equipe francesa que faz o raid percorrido por Jean Mermoz há cem anos, desde Montoir-de-Bretagne. Viajam a bordo de um Citroën, o modelo Aérodeuche 2CV6 Spécial, 1978, restaurado, equipado e bem decorado pela artista belga Maya van Bellinghen.
ROTEIRO – O carro, levado de navio a Caiena, na Guiana Francesa, entrou no Brasil pelo Norte e depois Nordeste. A equipe é composta por Anissa Pécheux, 30 anos, Alexis Maloux, 32 e Thierry Maloux, 64. Com carta do prefeito de Toulouse, Jean-Luc Moudenc, ao prefeito Paulinho Freire.
VISITAS – Em Natal, orientados pelos pesquisadores Roberto da Silva e Fred Nicolau, visitarão as antigas instalações da Aéropostale, na Base Aérea; hidrobase do Potengi; e a Lagoa do Bomfim. Foi de lá que Mermoz decolou de volta para Europa, num voo direto sobre o Atlântico, em 1930.
Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.
TRIBUNA DO NORTE


